STUART EDGAR ANGEL JONES (1945-1971)

Carta O Berro………………………………………………….repassem

STUART EDGAR ANGEL JONES (1945-1971)

Data e local de nascimento: 11/01/1945, Salvador (BA)

Filiação: Zuleika Angel Jones e Norman Angel Jones

Organização política ou atividade: MR-8

Data e local do desaparecimento: 14/05/1971, Rio de Janeiro (RJ)

Stuart Edgar Angel Jones foi assassinado sob terríveis torturas na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Morreu na noite de 14 de maio de 1971 e o nome dele consta da lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. O caso gerou grande repercussão nacional e internacional.

Filho da estilista de alta costura Zuzu Angel com o norte-americano Norman Angel Jones, irmão da colunista social Hildegard Angel, Stuart nasceu em Salvador e cresceu no Rio de Janeiro. Apaixonado por esportes, praticou tênis, natação, capoeira, levantamento de peso e remo.

Era estudante de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo trabalhado também como professor. Em 18/08/1968, havia casado com Sonia Maria Lopes de Moraes, que também seria morta em 1973, em São Paulo. Moravam na Tijuca.

Militante do MR-8 desde o período em que a organização tinha o nome de Dissidência da Guanabara, Stuart, conforme documentos dos órgãos de segurança, integrou sua Direção Geral a partir de meados de 1969, ao lado de Daniel Aarão Reis e Franklin de Souza Martins.

Também era apontado como participante de diversas ações armadas e se presume que os militares o torturaram com tamanha brutalidade porque pretendiam, através dele, chegar a Carlos Lamarca, recentemente integrado à organização.

Stuart foi preso por volta das 9h da manhã do dia 14, na avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro, por agentes do CISA. As circunstâncias de sua morte sob torturas foram narradas, em carta a Zuzu, pelo preso político Alex Polari de Alverga, que esteve com ele naquela unidade da Aeronáutica, na Base Aérea do Galeão.

Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA. Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar que se sucedia sempre às acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastadode um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos”.

Zuzu Angel procurou o filho infatigavelmente, abordando autoridades nacionais e internacionais e concedendo entrevistas a quantos veículos de imprensa tivessem a coragem de publicá-las. Conseguiu fazer chegar sua denúncia ao então senador Edward Kennedy, que levou o caso à tribuna do Senado dos Estados Unidos. Pessoalmente, conseguiu entregar ao secretário de Estado Henry Kissinger, em visita ao Brasil em fevereiro de 1976, uma carta com a denúncia e um exemplar do livro de Hélio Silva, onde era relatada a morte de Stuart. Esse historiador avalia que o afastamento e a posterior reforma do brigadeiro João Paulo Penido Burnier, denunciado como autor do crime, e a própria destituição do ministro da Aeronáutica Márcio de Souza e Mello, foram desdobramentos das pressões internacionais sobre o governo Médici. Todos os principais jornais estrangeiros registraram o fato, em especial o Washington Post e Le Monde. No Brasil, os diários O Estado de São Paulo e Jornal do Brasil conseguiram publicar matérias sobre o caso, apesar da censura.

Zuzu foi morta, em março de 1976, sem nunca descobrir qualquer indício do paradeiro do filho. O desaparecimento de Stuart e a luta de Zuzu foram evocados por Chico Buarque e Miltinho na canção Angélica, de 1977, e levados ao cinema, em 2006, pelo diretor Sérgio Rezende, tendo a atriz Patrícia Pilar atuado como a mãe de Stuart.

No Relatório do Ministério da Marinha, apresentado ao ministro da Justiça Maurício Corrêa em 1993, consta que Stuart foi morto no Hospital Central do Exército, mas indicando a data incorreta de 5 de janeiro de 1971. O Relatório do Ministério da Aeronáutica faz menção às denúncias feitas por Alex Polari mas, em vez de esclarecer as circunstâncias da morte, estende-se falando sobre as atividades do denunciante.

Limita-se a informar: “neste órgão não há dados a respeito da prisão e suposta morte de Stuart Edgar Angel Jones”.

Passados 17 anos da morte de Stuart, Amílcar Lobo, médico que atuava no DOI-CODI/RJ e que teve seu registro profissional cassado por cumplicidade ou conivência com as torturas, confessou tê-lo atendido no quartel da PE antes de sua transferência para a Base Aérea do Galeão. “Ele tinha equimoses no abdome e tórax causados provavelmente por socos (…) dei a ele analgésicos”, relatou. Disse, ainda, que Stuart estava consciente mas se recusou a lhe dirigir a palavra.

No livro Desaparecidos Políticos, Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa escrevem:

Para o desaparecimento do corpo existem duas versões. A primeira é de que teria sido transportado por um helicóptero da Marinha para uma área militar localizada na restinga de Marambaia, na Barra de Guaratiba, próximo à zona rural do Rio, e jogado em alto-mar pelo mesmo helicóptero. Mas, de acordo com outras informações, o corpo de Stuart teria sido enterrado como indigente, com o nome trocado, num cemitério de um subúrbio carioca, provavelmente Inhaúma.

Os responsáveis: os brigadeiros Burnier e Carlos Afonso Dellamora, o primeiro, chefe da Zona Aérea e, o segundo, comandante do CISA; o tenente-coronel Abílio Alcântara, o tenente-coronel Muniz, o capitão Lúcio Barroso e o major Pena – todos do mesmo organismo; o capitão Alfredo Poeck – do CENIMAR; Mário Borges e Jair Gonçalves da Mota – agentes do DOPS”.

O caso foi levado também ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, que naquele período, e particularmente na gestão do ministro da Justiça Alfredo Buzaid, desempenhou um papel meramente homologatório perante as violências praticadas pelo Estado ditatorial.

Em 1972, por 8 votos a 1, o caso foi arquivado, sendo surpreendente o fato de o representante da OAB no órgão, Raymundo Faoro, ter se alinhado em seu voto com essa maioria, onde estava também o senador Filinto Müller, notório torturador durante o Estado Novo.

____________________________

+ Informações.

STUART EDGAR ANGEL JONES

Militante do MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO 8 DE OUTUBRO (MR-8).

Nasceu a 11 de janeiro de 1946, na Bahia, filho de Norman Angel Jones e Zuleika Angel Jones. Desaparecido desde 1971, aos 26 anos de idade.

Casado com Sônia Maria Morais Angel Jones (morta). Estudante de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Foi preso no Grajaú (próximo à Av. 28 de Setembro), no Rio de Janeiro, em 14 de junho de 1971, cerca das 9:00 horas, por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), para onde foi levado e torturado.

Ao cair da noite, após inúmeras sessões de tortura, já com o corpo esfolado, foi amarrado à traseira de um jipe da Aeronáutica e arrastado pelo pátio com a boca colada ao cano de descarga do veículo, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono.

Em 08 de abril de 1987, a Revista “Isto É”, na matéria “Longe do Ponto Final”, publica declarações do ex-médico torturador Amílcar Lobo, que reconheceu ter visto Stuart no DOI-CODI/RJ, sem precisar a data.

O preso político Alex Polari de Alverga é testemunha da prisão e tortura até a morte de Stuart, tendo inclusive presenciado a cena em que ele era arrastado por um jipe, com a boca no cano de descarga do veículo, pelo pátio interno do quartel.

No Relatório do Ministério da Marinha consta que foi “morto em 5 de janeiro de 1971, no Hospital Central do Exército…”

O Relatório do Ministério da Aeronáutica faz referências às denúncias sobre a morte de Stuart feitas por Alex Polari. Ao invés de esclarecer sua morte, dados do relatório falam da vida pregressa de Alex e finaliza dizendo: “neste órgão não há dados a respeito da prisão e suposta morte de Stuart Edgar Angel Jones.”

____________________________

Artigo da “Folha de São Paulo” de 2/9/79, assinado por Tamar de Castro, intitulado: “Seu filho está sendo morto, agora”:

 

“Zuzu Angel, figurinista morta em circunstâncias ainda não esclarecidas, em 1976, relata em depoimento inédito ao historiador Hélio Silva, agora divulgado, o desaparecimento de seu filho, Stuart Edgar Angel Jones, estudante e professor, que — segundo suas denúncias – foi seqüestrado no dia 14 de julho de 1971 por agentes ligados ao Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), e – ainda segundo as denúncias – torturado e morto na Base Aérea do Galeão.

As torturas teriam sido presenciadas por outro preso político, Alex Polari de Alverga que, através de uma carta, informou Zuzu Angel das circunstâncias da morte de Stuart. Alex Polari cumpre atualmente pena de prisão no presídio da Frei Caneca, no Rio.

Baseada na carta de Alex e em outras evidências, Zuzu denunciou o assassinato de Stuart – de dupla cidadania, brasileira e norte-americana – ao senador Edward Kennedy, que levou o caso ao Congresso dos Estados Unidos. A mãe do estudante morto entregou também ao secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, – quando este esteve no Brasil, em 1976 — uma carta pessoal, a tradução da carta de Alex e um exemplar do vigésimo volume da série ‘História da República Brasileira’, de Hélio Silva, onde o autor relata a morte do estudante.

Segundo o historiador, o afastamento da 3ª Zona Aérea e posterior reforma do brigadeiro João Paulo Penido Burnier e a própria destituição do então ministro da Aeronáutica, Márcio Souza e Melo, estiveram relacionados com os protestos norteamericanos pela morte de Stuart.

O caso Stuart Angel mistura-se com o plano de utilizacão do PARASAR para eliminação de lideranças políticas, concebido pelo brigadeiro Burnier em 1968. O plano foi denunciado pelo capitão Sérgio Miranda Ribeiro de Carvalho que, por este motivo, foi punido com base no Ato Institucional n° 5.

O depoimento de Zuzu Angel foi prestado em 10 de fevereiro de l976, um mês antes de sua morte, ao historiador Hé1io Silva na qualidade de diretor do Centro de Memória Social Brasileira, da Faculdade Cândido Mendes, auxiliado por Maria Cecilia Ribas Carneiro, pesquisadora assistente. Nele, Zuzu Angel relata sua peregrinação junto a autoridades militares para ter alguma notícia sobre a prisão de seu filho, os desmentidos de que o estudante estivesse preso, feitos pessoalmente pelo general Sílvio Frota, na época comandante do 1° Exército.

Zuzu Angel afirma que as torturas sofridas por seu filho foram confirmadas, inclusive, pela visita que recebeu da sra. Lígia Tedesco, mulher do brigadeiro Tedesco, amigo pessoal de Burnier. A sra. Tedesco reafirmou as torturas sofridas no CISA por ‘um rapaz’ e procurou diminuir a indignação de Zuzu assegurando-lhe que ‘esse rapaz não era o seu filho’. Oficialmente, Stuart Angel Jones foi considerado revel, julgado e absolvido pelos tribunais competentes.”

____________________________

+ Informações.

(do livro Habeas Corpus)

STUART EDGAR ANGEL JONES (1945-1971)

Filho da estilista Zuzu Angel com o norte-americano Norman Angel Jones, Stuart nasceu em Salvador e cresceu no Rio de Janeiro. Apaixonado por esportes, praticou tênis, natação, capoeira, levantamento de peso e remo. Estudou Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo trabalhado como professor. Militou no MR-8 desde quando se chamava Dissidência da Guanabara, integrando sua direção a partir de meados de 1969.

Stuart foi preso por volta das 9h da manhã do dia 14 de maio de 71, na avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro, por agentes do Cisa. As circunstâncias de sua morte sob torturas, nessa mesma noite, foram narradas, em carta a Zuzu, pelo preso político Alex Polari de Alverga, que esteve com ele naquela unidade da Aeronáutica, na Base Aérea do Galeão:

[…] Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem-número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semiesfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos.

Anos depois, Amílcar Lobo, médico que atuava no DOI-Codi/RJ, confessaria ter atendido Stuart:

“Ele tinha equimoses no abdômen e tórax causados provavelmente por socos […] dei a ele analgésicos”.

No livro Desaparecidos Políticos, Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa escrevem:

Para o desaparecimento do corpo existem duas versões. A primeira é de que teria sido […] jogado em alto-mar pelo mesmo helicóptero. Mas, de acordo com outras informações, o corpo de Stuart teria sido enterrado como indigente, com o nome trocado, num cemitério de um subúrbio carioca, provavelmente Inhaúma. Os responsáveis: os brigadeiros Burnier e Carlos Afonso Dellamora, o primeiro, chefe da Zona Aérea e, o segundo, comandante do Cisa; o tenente-coronel Abílio Alcântara, o tenente-coronel Muniz, o capitão Lúcio Barroso e o major Pena – todos do mesmo organismo; o capitão Alfredo Poeck – do Cenimar; Mário Borges e Jair Gonçalves da Mota – agentes do Dops.

O crime teve repercussão nacional e internacional, principalmente em razão dos esforços de sua mãe, a estilista Zuzu Angel, que também acabou morta pelos agentes da repressão. Os principais jornais estrangeiros registraram o fato. No relatório da Marinha, de 1993, consta que Stuart foi morto no Hospital Central do Exército, mas a data é incorreta. O relatório da Aeronáutica limita-se a informar: “neste órgão não há dados a respeito da prisão e suposta morte de Stuart Edgar Angel Jones”.

O caso foi levado também ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, que naquele período, e particularmente na gestão do ministro da Justiça Alfredo Buzaid, desempenhou um papel meramente homologatório perante as violências praticadas pelo Estado ditatorial. Em 1972, por 8 votos a 1, o processo foi arquivado, sendo surpreendente o fato de o representante da OAB no órgão, Raymundo Faoro, ter se alinhado em seu voto com essa maioria, onde estava também o senador Filinto Müller, notório chefe de torturador durante o Estado Novo.

Em 9 de dezembro de 2010, como parte do projeto Direito à Memória e à Verdade da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, foi inaugurado, na sede do Flamengo, no Rio de Janeiro, um memorial em homenagem a Stuart, que pertenceu à sua equipe de remo.

____________________________

+ Detalhes.

Ter, 08 de Setembro de 2009 03:06 Heróis do Movimento Estudantil

Militante do MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO 8 DE OUTUBRO (MR-8).

Nasceu a 11 de janeiro de 1946, na Bahia, filho de Norman Angel Jones e Zuleika Angel Jones.

Desaparecido desde 1971, aos 26 anos de idade.

Casado com Sônia Maria Morais Angel Jones (morta). Estudante de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Foi preso no Grajaú (próximo à Av. 28 de Setembro), no Rio de Janeiro, em 14 de junho de 1971, cerca das 9:00 horas, por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), para onde foi levado e torturado.

Ao cair da noite, após inúmeras sessões de tortura, já com o corpo esfolado, foi amarrado à traseira de um jipe da Aeronáutica e arrastado pelo pátio com a boca colada ao cano de descarga do veículo, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono.

Em 08 de abril de 1987, a Revista “Isto É”, na matéria “Longe do Ponto Final”, publica declarações do ex-médico torturador Amílcar Lobo, que reconheceu ter visto Stuart no DOI-CODI/RJ, sem precisar a data.

O preso político Alex Polari de Alverga é testemunha da prisão e tortura até a morte de Stuart, tendo inclusive presenciado a cena em que ele era arrastado por um jipe, com a boca no cano de descarga do veículo, pelo pátio interno do quartel.

No Relatório do Ministério da Marinha consta que foi “morto em 5 de janeiro de 1971, no Hospital Central do Exército…”

O Relatório do Ministério da Aeronáutica faz referências às denúncias sobre a morte de Stuart feitas por Alex Polari. Ao invés de esclarecer sua morte, dados do relatório falam da vida pregressa de Alex e finaliza dizendo: “neste órgão não há dados a respeito da prisão e suposta morte de Stuart Edgar Angel Jones.”

Artigo da “Folha de São Paulo” de 2/9/79, assinado por Tamar de Castro, intitulado: “Seu filho está sendo morto, agora”:

“Zuzu Angel, figurinista morta em circunstâncias ainda não esclarecidas, em 1976, relata em depoimento inédito ao historiador Hélio Silva, agora divulgado, o desaparecimento de seu filho, Stuart Edgar Angel Jones, estudante e professor, que – segundo suas denúncias – foi seqüestrado no dia 14 de julho de 1971 por agentes ligados ao Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), e – ainda segundo as denúncias – torturado e morto na Base Aérea do Galeão.

As torturas teriam sido presenciadas por outro preso político, Alex Polari de Alverga que, através de uma carta, informou Zuzu Angel das circunstâncias da morte de Stuart. Alex Polari cumpre atualmente pena de prisão no presídio da Frei Caneca, no Rio.

Baseada na carta de Alex e em outras evidências, Zuzu denunciou o assassinato de Stuart – de dupla cidadania, brasileira e norte-americana – ao senador Edward Kennedy, que levou o caso ao Congresso dos Estados Unidos. A mãe do estudante morto entregou também ao secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, – quando este esteve no Brasil, em 1976 – uma carta pessoal, a tradução da carta de Alex e um exemplar do vigésimo volume da série ‘História da República Brasileira’, de Hélio Silva, onde o autor relata a morte do estudante.

Segundo o historiador, o afastamento da 3ª Zona Aérea e posterior reforma do brigadeiro João Paulo Penido Burnier e a própria destituição do então ministro da Aeronáutica, Márcio Souza e Melo, estiveram relacionados com os protestos norte-americanos pela morte de Stuart.

O caso Stuart Angel mistura-se com o plano de utilizacão do PARASAR para eliminação de lideranças políticas, concebido pelo brigadeiro Burnier em 1968. O plano foi denunciado pelo capitão Sérgio Miranda Ribeiro de Carvalho que, por este motivo, foi punido com base no Ato Institucional n° 5.

O depoimento de Zuzu Angel foi prestado em 10 de fevereiro de 1976, um mês antes de sua morte, ao historiador Hélio Silva na qualidade de diretor do Centro de Memória Social Brasileira, da Faculdade Cândido Mendes, auxiliado por Maria Cecilia Ribas Carneiro, pesquisadora assistente. Nele, Zuzu Angel relata sua peregrinação junto a autoridades militares para ter alguma notícia sobre a prisão de seu filho, os desmentidos de que o estudante estivesse preso, feitos pessoalmente pelo general Sílvio Frota, na época comandante do 1° Exército.

Zuzu Angel afirma que as torturas sofridas por seu filho foram confirmadas, inclusive, pela visita que recebeu da sra. Lígia Tedesco, mulher do brigadeiro Tedesco, amigo pessoal de Burnier. A sra. Tedesco reafirmou as torturas sofridas no CISA por ‘um rapaz’ e procurou diminuir a indignação de Zuzu assegurando-lhe que ‘esse rapaz não era o seu filho’. Oficialmente, Stuart Angel Jones foi considerado revel, julgado e absolvido pelos tribunais competentes.”

HONRA E GLÓRIA AOS HERÓIS DO POVO!  fonte MEPR

____________________________

Ditadura Militar

Stuart Angel é homenageado por seu combate

publicada segunda-feira, 13/12/2010 às 14:46 e atualizada terça-feira, 25/01/2011 às 16:01

Por Juliana Sada

Na semana passada, foi realizada uma homenagem à memória de Stuart Edgar Angel Jones. Militante do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro) e combatente da ditadura, Stuart foi torturado e assassinado pelo regime militar em 1971. Além de militante, o jovem era atleta do clube de regatas do Flamengo e foi bicampeão carioca de remo, nos anos 64 e 65.  Sua ligação com o clube extrapola o esporte, enquanto era perseguido pela ditadura, Stuart conseguiu abrigo na sede, ficando escondido por um tempo lá.

A homenagem foi realizada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o Clube de Regatas do Flamengo, o Centro Acadêmico Stuart Angel Jones e a Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação. Para o ministro dos direitos humanos, Paulo Vanucchi, presente no evento, o “momento se fazia necessário há muito tempo. É um dia de alegria, com lágrimas inevitáveis, para fazermos uma homenagem ao herói que foi o Stuart. É importante lembrar tudo o que aconteceu à juventude de hoje, para que isso nunca possa se repetir”. Hildegard Angel, irmã de Stuart, esteve presente na homenagem e, emocionada, agradeceu: “É ótimo receber este tipo de carinho e de lembrança de que não há país sem democracia e liberdade”.

Junto ao monumento, o vice-prefeito Carlos Alberto Muniz, Hildegard Angel, Patrícia Amorim, Zezé Barros e o Min.Paulo Vannuchi

Stuart Angel Jones não foi a única vítima na família, sua esposa Sônia também foi morta durante a ditadura.  Além disso, diante da morte de seu filho, a estilista Zuzu Angel começou uma investigação sobre o caso e protagonizou uma campanha de denúncia a nível internacional, utilizando-se de sua fama e da cidadania estadunidense do filho. Em 1975, Zuzu morreu em um acidente de carro, vítima de um atentado.

A prisão e o desaparecimento

Stuart Angel Jones foi preso em maio de 1971 no local onde iria encontrar outro companheiro, Alex Polari. Ele foi levado para o Centro de Informação e Segurança da Aeronáutica. De acordo com Jacob Gorender, no clássico livro Combate nas Trevas, os policias queriam apenas uma informação: a localização de Lamarca. Diante da sua recusa em dar o paradeiro do companheiro, o jovem sofreria uma brutal tortura. “Aplicado sob a chefia do Brigadeiro João Paulo Burnier, os tormentos violentíssimos, como o de arrastamento por um jipe com a boca no cano de descarga, resultaram em mortais e o dirigente do MR-8 somou um nome a mais na lista dos ‘desaparecidos’”.

O relato feito por Gorender é resultado da denúncia feita por seu companheiro Alex Polari, que também estava preso:

“Em um momento retiraram o capuz e pude vê-lo sendo espancado depois de descido do pau-de-arara. Antes, à tarde, ouvi durante muito tempo um alvoroço no pátio do CISA. Havia barulho de carros sendo ligados, acelerações, gritos, e uma tosse constante de engasgo e que pude notar que se sucedia sempre às acelerações. Consegui com muito esforço olhar pela janela que ficava a uns dois metros do chão e me deparei com algo difícil de esquecer: junto a um sem número de torturadores, oficiais e soldados, Stuart, já com a pele semi-esfolada, era arrastado de um lado para outro do pátio, amarrado a uma viatura e, de quando em quando, obrigado, com a boca quase colada a uma descarga aberta, a aspirar gases tóxicos que eram expelidos”

O livro Desaparecidos Políticos, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, conta mais um pouco do destino do militante:

“Para o desaparecimento do corpo existem duas versões. A primeira é de que teria sido transportado por um helicóptero da Marinha para uma área militar localizada na restinga de Marambaia, na Barra de Guaratiba, próximo à zona rural do Rio, e jogado em alto-mar pelo mesmo helicóptero. Mas, de acordo com outras informações, o corpo de Stuart teria sido enterrado como indigente, com o nome trocado, num cemitério de um subúrbio carioca, provavelmente Inhaúma.

Os responsáveis: os brigadeiros Burnier e Carlos Afonso Dellamora, o primeiro, chefe da Zona Aérea e, o segundo, comandante do CISA; o tenente-coronel Abílio Alcântara, o tenente-coronel Muniz, o capitão Lúcio Barroso e o major Pena – todos do mesmo organismo; o capitão Alfredo Poeck – do CENIMAR; Mário Borges e Jair Gonçalves da Mota – agentes do DOPS”.

Assim como Stuart, há outras 135 pessoas que estão na lista dos desaparecidos. A homenagem realizada faz parte da série de memoriais “Pessoas Imprescindíveis”, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que com isso busca resgatar a história daqueles que combateram a ditadura.

(Com informações do Clube de Regatas do Flamengo e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República)

_________________________

TORTURA E MORTE NOS CALABOUÇOS – PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

No dia 26 de maio de 1973, a USP recebia nos palcos do seu campus o cantor Gilberto Gil. Alunos e professores ainda estavam de luto pela morte do estudante de geologia, Alexandre Vannucchi Leme, torturado e assassinado pelos órgãos repressores do governo militar. Quando Gilberto Gil soltou a voz, cantando os versos acima, ecoava no Brasil o canto proibido, a voz silenciada de uma nação, o grito de dor de quem era torturado e morto nos calabouços da ditadura militar.
Cálice”, composição de Gilberto Gil e Chico Buarque, falava daquele momento obscuro da história do Brasil. Seus versos eram mais do que um sentido de protesto, era um grito sufocado, um alerta contra o horror das masmorras, um pedido de socorro dentro de um sistema cruel e truculento, uma denúncia aos assassínios praticados. A canção tinha sido proibida pela censura. Poucos dias antes do show na USP, entre os dias 11 e 13 de maio, Chico Buarque e Gilberto Gil tiveram os microfones desligados quando, em um festival promovido pela gravadora Polygram, o “Phono 73”, tentaram cantar a música.


O show histórico de Gilberto Gil na USP selou um momento de ruptura e renascença do movimento estudantil. Ruptura porque os estudantes optavam por enterrar de vez a luta armada dentro das ideologias de esquerda aprendidas nas faculdades; renascença porque o movimento estudantil estava praticamente morto, desde o desfecho do congresso da UNE em Ibiúna, em 1968, que terminou com a prisão dos líderes estudantis, muitos exilados, outros mortos ou desaparecidos pela ditadura.
Gilberto Gil, um dos líderes da Tropicália, outrora vaiado e acusado de alienação por parte da esquerda engajada do movimento estudantil, fazia uma reconciliação histórica. O seu show era para durar trinta minutos, durou mais de três horas. E “Cálice
” tornou-se o hino daquele momento. Tropicalista e estudantes selavam a paz, daquela vez, os aplausos venceram as vaias, música e movimento estudantil formavam uma só voz contra a ditadura militar.
A canção soava na voz do seu autor como um grito de desobediência à repressão, uma rebeldia civil. Os seus versos traziam a denuncia da tortura – “Quero cheirar fumaça de óleo diesel” -, alusão clara à morte de Stuart Angel Jones, torturado e executado em 1971, tendo o corpo arrastado pelo pátio de um quartel da aeronáutica, amarrado em um jipe, com a boca presa ao cano de escapamento. Quando cantada por Gilberto Gil no campus da USP, a canção homenageou Stuart Angel e Alexandre Vannucchi Leme, vítimas das suas ideologias e de um sistema repressivo sanguinário. Através dos versos de “Cálice”, traçamos um paralelo entre as mortes do filho de Zuzu Angel e do estudante de geologia da USP, ocorridas em 1971 e 1973, respectivamente. Um paralelo traduzido neste hino contra um tempo obscuro que se desenhou no céu de um Brasil despido dos sonhos de liberdade e democracia.

Stuart Angel e a Luta Armada

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta

Com a promulgação do Ato Institucional 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, que entre outras arbitrariedades repressivas anulava o direito de habeas corpus aos presos políticos, a ditadura militar entrou no seu período mais duro, suprimindo qualquer diálogo com os que se lhe faziam oposição. Tradicionais partidos de esquerda que se encontravam na clandestinidade, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB), tiveram suas bases esfaceladas, transformadas em pequenas organizações de resistência à ditadura. Estas organizações de esquerda, após o AI-5, também endureceram as suas ações, optando pela luta armada como forma de combate ao regime dos generais. Esquerda e direita iniciaram uma guerra ideológica sangrenta, com vantagens para a direita, que detinha a máquina do Estado a seu favor, manipulando as leis através de atos institucionais, oficializando a repressão como forma de segurança do Estado, regido por uma ditadura escancarada. No auge da guerra repressiva dos militares, até a pena de morte entrou em vigor no Brasil, em 1969, promulgada por um ato institucional, prevendo a execução de terroristas e subversivos de esquerda.
Foi neste panorama turbulento da história brasileira que surgiu a figura de Stuart Edgard Angel Jones. Filho do norte-americano Norman Angel Jones e da brasileira Zuleika Angel Jones, Stuart Angel nasceu na Bahia, em 11 de janeiro de 1946. Sua vida poderia ter passado despercebida, ofuscada pelo brilho da mãe, a estilista de moda Zuzu Angel, dona de um grande prestígio dentro da alta costura e da moda brasileira na década de setenta; ou apoiada na proteção de uma expectativa burguesa, delineada nos moldes de uma classe média construída sobre as raízes de uma ditadura. Mas Stuart Angel rompeu com as amarras burguesas, tornando-se muito cedo, militante de organizações de esquerda, envolvendo-se com a luta armada, ideologias consideradas inimigas do regime de então, culminando com uma morte violenta, aos 26 anos de idade.
Stuart Angel teve uma vida curta e de intensa militância política. Estudante de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ingressou nos movimentos de resistência à ditadura ainda nos anos sessenta, através do movimento estudantil, ao lado da companheira Sônia Maria Morais Angel Jones, com quem se casara. Juntos, integraram a Dissidência da Guanabara (DI-GB), organização política de esquerda surgida em 1966, originada de uma ruptura com o PCB. Mais tarde, quando fez parte do seqüestro ao embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, em 1969, a DI-GB passou a usar o nome de Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), organização que teve papel destacado nas guerrilhas urbanas.
Perseguido como terrorista pela ditadura militar, Stuart Angel deixou as salas de aula da sua universidade, passando a viver na clandestinidade. Fez parte de várias ações subversivas contra o regime repressivo, como assaltos a bancos, seqüestros e guerrilhas. Tornou-se o elo de ligação com o líder do MR8, Carlos Lamarca, que ao lado de Carlos Marighella, tornara-se o maior inimigo do governo. Diante de uma militância tão intensa, Stuart Angel, que usava o codinome de Paulo, passou a ter a sua imagem impregnada nos cartazes de “Terroristas – Procura-se”, espalhados por todo o país. Stuart Angel recusava de vez o mundo burguês e protegido que fora criado, assumindo os seus ideais revolucionários e a luta contra a ditadura que governava o país, luta traduzida naquele momento, na resistência armada.

Prisão e Desaparecimento

De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Quanto mais a esquerda mostrava-se ousada, como nos seqüestros efetuados a embaixadores e cônsules de outros países, mais a ditadura endurecia na resposta às ações subversivas, classificando-as de terroristas. Instituída a pena de morte para terrorista, a vida dos militantes de esquerda passou a não ter valor algum diante da polícia repressiva da ditadura. Atos de tortura tornaram-se comuns nos calabouços, adquirindo requintes sádicos e sanguinolentos. Apesar da banalidade da tortura, o regime militar jamais admitia a sua existência, temendo retaliações da comunidade internacional que lutava pelos direitos humanos.
Com a morte de Carlos Marighella, assassinado em uma emboscada em 1969, Carlos Lamarca passou a ser o inimigo número um do regime militar, que iniciou contra ele uma caçada intensa. Stuart Angel passou a ser o contacto de ligação entre Lamarca, sendo quem detinha a preciosa informação do seu paradeiro. Esta evidência foi determinante nas violentas torturas que sofreria, quando da sua prisão.
No dia 14 de junho de 1971, Stuart Angel caiu nas mãos da ditadura militar, sendo preso no Grajaú, Rio de Janeiro. Sua prisão teria acontecido após o militante Alex Polari de Alverga, preso dois dias antes, ter revelado sob tortura, o local que serviria de ponto de encontro entre eles. Segundo depoimento do próprio Polari, ao ser torturado e revelar o ponto final, tentara ludibriar os torturadores, apelando para uma ínfima tentativa de salvar Stuart Angel, antecipando o horário do encontro em duas horas, jogando com um local perto do combinado. Ainda, segundo esta versão, os agentes já iam embora, quando reconheceram Stuart Angel em um carro, rondando pelas redondezas, adiantado na hora prevista.
Na manhã daquele fatídico dia, pouco depois das oito horas, Stuart Angel dirigia um carro, próximo à Avenida 28 de Setembro, quando foi cercado por dois veículos de agentes da polícia política. Com armas em punho e apontadas, Stuart Angel foi retirado do seu carro, sendo enfiado em um dos veículos pelos agentes. Jamais voltaria a ser visto com vida por amigos e familiares.
Após a prisão, além do testemunho de Alex Polari de Alverga, que afirmaria ter presenciado a execução do companheiro, apenas um confuso relato do oficial Amílcar Lobo, um médico, que fizera parte de várias sessões de tortura no famoso Açougue Humano de Petrópolis, daria conta de que Stuart Angel tinha passado com vida pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro.
Stuart Angel, professor e estudante, 26 anos, porte de galã, engrossaria a lista dos desaparecidos da ditadura militar. Deixara o cotidiano burguês para fazer parte de uma vida clandestina, abandonara as salas de aula para pisar nos palcos das guerrilhas urbanas, deixara de ser o filho de uma estilista famosa, para ser filho da nação que o marginalizava e chamava-o de terrorista.

Com a Boca Presa ao Cano de Descarga de Um Jipe

Após ter caído nas mãos dos agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), Stuart Angel foi levado para as dependências da Base Aérea do Galeão, onde foi duramente torturado, para que falasse sobre o paradeiro de Carlos Lamarca, de quem era o contacto. Não resistiu às torturas, mas não revelou uma única palavra sobre o paradeiro de Lamarca.
Stuart Angel sofreu inúmeras sessões de tortura durante todo o dia, resistindo a dizer qualquer palavra que denunciasse os companheiros, procedimento que irritou profundamente os seus algozes. Ao cair da noite, Stuart Angel trazia o corpo coberto de hematomas e esfolado, foi amarrado à traseira de um jipe militar e arrastado pelo pátio das dependências daquela base da Aeronáutica, tendo a boca colada ao cano de descarga do jipe, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono. O seu corpo teria sido atirado ao mar, na restinga da Marambaia.

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Este relato de crueldade na morte de Stuart Angel foi feito por Alex Polari de Alverga (na fotografia em um ritual do Santo Daime), em carta enviada um ano depois para a sua mãe, Zuzu Angel. Polari teria assistido ao ato macabro através de uma janela da sua cela. Até os dias de hoje, o testemunho de Polari é contestado e desmentido pelos envolvidos no caso e por aqueles que defendem os atos da direita no período do regime militar, que justificam a tortura como necessária à defesa da nação, contra o terrorismo que ameaçava a segurança nacional. Alex Polari tornou-se um místico e adepto da seita do Santo Daime, uma conduta pregressa de vida é utilizada para desqualificar o seu testemunho. O próprio Polari sofreu torturas terríveis como choques elétricos, cadeira do dragão, pau-de-arara e tantas outras atrocidades, com certezas as mesmas que sofrera Stuart Angel. Se Polari inventou isto, teria que ter uma imaginação muito fértil, tamanha originalidade da crueldade imposta a um homem amarrado com a boca presa a um cano de escape de um veículo. Como o caso chegou aos tribunais norte-americanos (Stuart Angel tinha dupla nacionalidade, brasileira e estadunidense) através de denúncias de sua mãe, Zuzu Angel, e o governo militar sofreu forte pressão dos Estados Unidos para esclarecer os fatos, é natural que nunca assumissem o crime e tentassem amenizar as atrocidades vazadas para o mundo, demonstrado existir tortura, veementemente negadas, nos calabouços do regime; para isto, é perfeitamente normal que descaracterizassem o depoimento de Alex Polari, tornando-o absurdo e lunático aos olhos de todos.
Não é absurdo que o corpo de Stuart Angel tenha sido jogado no mar, visto que existia à época a idéia da utilização da Operação Parasar, concebida pelo brigadeiro João Paulo Burnier, em 1968, que consistia em eliminar lideranças políticas atirando-as ao mar de um avião; para isto utilizando a unidade Parasar da Aeronáutica, especialista em busca e salvamento. O plano foi denunciado pelo capitão Sérgio Miranda Ribeiro de Carvalho, que, por este motivo, foi punido. O brigadeiro Burnier foi quem comandou o interrogatório e as torturas a Stuart Angel.
Morto no mesmo dia que fora preso, Stuart Angel desaparecia para sempre da vida, dos olhos dos amigos e familiares, mas continuaria com o rosto estampado pelas ruas de todo o Brasil por vários anos, com as palavras “Procura-se” debaixo da sua fotografia, numa farsa que o governo militar insistia em manter, fazendo com que se acreditasse que estava vivo e foragido.
Na busca pelo corpo do filho e pela verdade nas circunstâncias de sua morte, Zuzu Angel iniciou uma longa jornada investigativa que incomodou profundamente os militares. Morreu em um obscuro acidente automobilístico, na saída do túnel Dois Irmãos (hoje túnel Zuzu Angel), na madrugada de 14 de abril de 1976. Em 1996 o Estado reconheceu a morte de Zuzu Angel como conseqüência das denúncias que fez contra o regime militar sobre a morte do filho, resultante de torturas.

_____________________________

+ Detalhes

Fonte: O REBATE

Amor até as últimas conseqüências:
a luta de Zuzu Angel

Vanessa Gonçalves

“Srs. passageiros, dentro de poucos minutos passaremos no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, país onde se torturam e matam jovens estudantes (…)” . Uma declaração dessas, em plena ditadura seria uma audácia, se não fosse uma denúncia indignada de uma mãe que perdeu a vida para espalhar para todo o mundo o assassinato de seu filho na tortura.

Muito mais que um exemplo de coragem, a estilista Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel, foi uma mãe determinada a dizer ao mundo como é cruel ter um filho assassinado sob torturas e não ter o direito de sepultá-lo com dignidade.

Longe de ser uma ativista política, Zuzu Angel era apenas uma estilista reconhecida do Brasil e no exterior preocupada em fazer o seu trabalho. Mas sua vida se transformou completamente em junho de 1971 quando teve conhecimento do desaparecimento de seu filho, o militante político Stuart Edgar Angel Jones, um dos principais dirigentes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

O início do fim

Stuart estudava Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro quando abraçou a causa da luta armada. Tornou-se um dos mais importantes dirigentes do MR-8 e foi personagem-chave nas articulações que levaram o Capitão Carlos Lamarca a deixar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e entrar em sua Organização.

Era casado com Sônia Maria de Moraes Angel Jones que, posteriormente, teria uma morte tão violenta quanto a sua.

Aos 25 anos, Stuart foi preso no dia 14 de junho de 1971, no bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro, por volta das 9 horas, próximo da Av. 29 de setembro, por agentes do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica ( Cisa), para onde foi levado e torturado.

Ao cair a noite do mesmo dia, após inúmeras sessões de tortura e com o corpo maculado pelas agressões sofridas, Stuart foi amarrado à traseira de um jipe da Aeronáutica e arrastado pelo pátio com a boca colada ao cano de descarga do veículo, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono.

O que a ditadura não contava é que tal cena grotesca teria uma testemunha: o também preso político do MR-8, Alex Polari de Alverga.

A revolta de uma mãe

Desde que soube da prisão, tortura e morte de Stuart, Zuzu Angel tornou-se uma áspera opositora do regime militar.

Aproveitando-se de seu prestígio como estilista, passou a denunciar a personalidades do mundo político, diplomático, cultural e das comunicações de vários países o desaparecimento de seu filho.

Os órgãos de segurança não sabiam como calar essa mulher, que possuída de tamanha indignação, se lançou em uma campanha de difamação do governo sem tréguas e utilizando formas de denúncia diferentes das usadas por familiares de militantes políticos.

Em 1975, Zuzu Angel recebeu uma carta-denúncia de Alex Polari em que soube com detalhes sobre o calvário de Stuart. Indignada e machucada pela dor de perder um filho em tais circunstâncias, conseguiu que o historiador Hélio Silva publicasse a carta de Alex no último volume da História da República e, logo, as denúncias de Zuzu Angel tiveram grande repercussão internacional.

Constantemente Zuzu Angel clamava pelo direito de receber o corpo do filho para sepultá-lo. Entretanto, seus apelos foram em vão.

Disposta a tudo, teve a oportunidade de furar a segurança do secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger e entregar-lhe o “Dossiê Stuart”. A estilista acreditava que o governo dos Estados Unidos poderia pressionar a ditadura brasileira a dar-lhe maiores esclarecimentos pelo fato de Stuart ter dupla cidadania, uma vez que seu pai era norte-americano.

A repercussão das denúncias de Zuzu Angel incomodaram muito a repressão a ponto de a estilista ser alertada por militares descontentes com o governo de que os órgãos de repressão poderiam usar contra ela o “Código Doze”, ou seja, em outras palavras: atentado simulando acidente ou assalto.

Sem medo de buscar a verdade

As ameaças de morte não abalaram as forças de Zuzu Angel. Embora temesse por sua vida, continuou a incessante busca pelo filho e a divulgação das denúncias contra a ditadura.

Sabendo que o fim de sua história poderia estar próximo, escreveu ao amigo e compositor Chico Buarque de Hollanda uma carta em que dizia ter recebido ameaças de morte por parte dos militares e, que, se algum acidente acontecesse com sua pessoa, certamente teria sido provocado pela repressão.

No início da madrugada do dia 14 de abril de 1976, Zuzu Angel saiu de uma festa guiando seu Karman Guia rumo sua casa. À saída do Túnel 2 Irmãos seu carro perdeu a direção e chegava ao fim sua vida. A ditadura acabava de calar mais um opositor.

Obviamente, o inquérito policial alegou que o acidente ocorrera porque Zuzu Angel dormiu ao volante. Para seus familiares e amigos havia a certeza de que o acidente teria sido provocado pela repressão.

Passaram-se muitos anos, até que em 1996, durante a análise dos casos da Lei 9.140 (Lei dos Desaparecidos) ficou provado que o acidente que culminou na morte de Zuzu Angel foi provocado pelo choque com dois carros que a jogaram fora da pista. A Comissão Especial da lei encontrou testemunhas do acidente na época. Enfim, mais uma das mentiras da ditadura caiu por terra.

Até os dias de hoje, o corpo de Stuart não foi entregue à família, o que sabem sobre sua morte está apenas no relato de Alex Polari.

Zuzu Angel morreu buscando mostrar ao mundo a dor de perder um filho na tortura.

Sua história acaba de virar filme (estréia dia 04/08 “Zuzu Angel”), mas sua saga foi contada e cantada por Chico Buaque na música em que fez em homenagem à amiga:

“Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele não pode mais cantar”

(Angélica – Composição: Miltinho/Chico Buarque)

Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).
Contato: vangoncalves@gmail.com

________________________________

Artigo: ZUZU ANGEL: Uma história de resistência no período da ditadura.

________________________________

+ Detalhes.

Stuart Angel

Você acha que Jesus Cristo foi um bandido? Como não? Claro que foi. Afinal, rompeu com o sistema da época. Possuidor de grande aceitação popular, subverteu as normas. Você não acha que ele foi um bandido, não é? Está bem, concordo com você, não foi. Mas você concorda comigo se eu disser que foi um subversivo, não concorda? Foi preso e torturado até a morte.

Você já ouviu falar de Antônio Conselheiro? Diante do atraso e descontentamento geral do povo, resolveu formar uma comunidade igualitária (que palavra horrorosa), que rapidamente cresceu e tornou-se uma das maiores cidades do nordeste à época, com 25.000 habitantes. Organizada, religiosa, produtiva e comunitária. A reação das pessoas de posses, dos políticos e de alguns setores da igreja (em outras palavras, a elite), deu início à Guerra de Canudos (1896-1897). Todos os habitantes foram mortos (nem as crianças foram poupadas). Canudos virou cinzas, mas também tornou-se, por seu sonho e resistência, símbolo de luta e esperança de um outro Brasil. A imprensa dos primeiros anos da República e muitos historiadores, para justificar o genocídio, retrataram Antônio Conselheiro como um louco, fanático religioso e contra-revolucionário monarquista perigoso. Morto pelo regime.

Nas suas aulas de história voce deve ter ouvido falar muito de um homem chamado Joaquim José da Silva Xavier. Não? E aquele chamado Tiradentes, da Inconfidência Mineira? Pois é, é ele. Vá ao dicionário e verá uma das definições de Inconfidência – falta de fidelidade para com o Estado (está lembrado que o Estado é a ordem, a lei?). Tiradentes era um inconfidente, um bandido. É lógico que tinha que ser punido. Foi executado e esquartejado, a cabeça erguida em um poste e os demais restos mortais foram distribuídos ao longo dos lugares onde fizera seus discursos revolucionários. Hoje, é um herói, cantado em prosa e verso em todas as escolas do Brasil (está lembrado que há um feriado nacional em sua homenagem?).

Em todos os tempos, qualquer cidadão que se posiciona contra a autoridade é motivo de cuidados especiais. Está contra a ordem ideológica, econômica e política, contra o establishment. Fora da lei, é bandido.

É infindável na história o registro sobre homens e mulheres que se rebelaram contra o sistema e por este foram apontados e mostrados à sociedade como perigosos, subversivos. Por que será que homens assim, banidos da sociedade, muitas vezes eliminados fisicamente, hoje, aos nossos filhos, são mostrados como heróis?

A história sempre reserva a esses homens e mulheres uma página especial. Homens e mulheres que, a despeito de serem mostrados como inimigos que ameaçam a segurança nacional, entregaram-se a causas cujo combustível eram os ideais.

Você já ouviu falar de Zuleika Angel Jones? Era mais conhecida pelo nome de Zuzu Angel. Estilista carioca (apesar de mineira) de grande sucesso (vestiu estrelas do cinema americano como Liza Minelli, Joan Crawford e Kim Novak), casada com o americano Norman Angel Jones. Teve três filhos, Hildegard Angel (jornalista), Ana Cristina Angel e Stuart Angel.

Stuart Angel, foi militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). Foi preso pelo regime militar aos 24 anos. Após inúmeras sessões de tortura, já com o corpo totalmente esfolado, foi amarrado à traseira de um jipe da aeronática e arrastado pelo pátio da Base Aérea do Galeão com a boca colada ao cano de escape do veículo, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono.

Enfrentando a ditadura militar, Zuzu tentou encontrar o corpo do filho até os últimos dias de sua vida. Por isso, falou-se da sua grande coragem. “Eu não tenho coragem, coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade”, foi como ela respondeu. A sua luta incessante era em vão; depois de preso, torturado e executado, Stuart Angel teve o seu corpo jogado ao mar (descobriu-se depois). Por sua vez, a morte de Zuzu até hoje não foi explicada (Clique aqui para ouvir a música que Chico Buarque e Miltinho fizeram para ela).

Veja a carta que Stuart Angel escreveu para sua mãe.

Mãe,

Você me pergunta se eu acredito em Deus e eu te pergunto, que Deus? Tem sido minha missão te mostrar Deus dentro do homem, pois, somente no homem ele pode existir.

Não há homem pobre ou insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão. Todo homem por si só influencia a natureza do futuro. Através de nossas vidas nós criamos ações que resultam na multiplicação de reações.

Esse poder, que todos nós possuímos, esse poder de mudar o curso da história, é o poder de Deus. Confrontado com essa responsabilidade divina eu me curvo diante do Deus dentro de mim.

Stuart Edgar Angel Jones

______________________________

VÍDEOS SOBRE STUART ANGEL E ZUZU ANGEL

Depoimento de Alex Polari sobre a morte de Stuart Angel Jones, no Documentário “Sônia Morta Viva”

Linha Direta Justiça – Zuzu Angel (1° Parte)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s